A minha experiência como operador de mesa e como assessor me mostrou que investir com retorno consistente é um dos maiores desafios que uma pessoa pode ter. Em todos esses anos vi muitos novatos, seduzidos por uma série inicial de ganhos fáceis, ficarem cegos para os riscos do mercado. E vi investidores experientes serem traídos pela própria arrogância e pela incapacidade de aceitar um erro de julgamento.
Correndo o risco de parecer piegas, cito uma frase de para-choque de caminhão: o inteligente aprende com os próprios erros, mas o sábio aprende com os erros dos outros. Selecionei os erros mais comuns que vi clientes cometerem na mesa. Espero que você aprenda com os que eu e outros já cometemos.
1. Esquecer que ação tem valor
Como consumidor, todo mundo reconhece uma liquidação. Com ações, conheço um grupo muito pequeno de pessoas com coragem e capacidade de reconhecer que as empresas estão baratas. Crise após crise ouço a mesma frase: na próxima vez que ficar tão barato eu compro tudo. Quando a hora chega, o investidor se amedronta com as previsões de quem não tem um real investido. Faça o dever de casa: entenda ao menos o básico de valor patrimonial, margem e crescimento de receita. Dá para saber quando uma empresa está em liquidação.
2. Aumentar o tamanho rápido demais
Vi dezenas de investidores começarem com uma quantia pequena para o seu patrimônio. Nesse tamanho a pessoa é o rei: compra, vende, espera a queda, usa o stop, realiza o lucro com desenvoltura. Num dado momento decide que agora é para valer e investe dez ou vinte vezes mais. Pronto. Agora a pequena queda preocupa, o lucro não é realizado na hora certa e o stop deixa de ser respeitado. O tamanho do investimento muda a sua decisão, porque você é humano e sente medo e ganância. Aumente devagar.
3. Concentrar tudo em uma ação
Já vi grandes ganhos de curto prazo em quem se concentrou em uma única ação. Também vi uma ação cair pela metade de um dia para o outro e levar o dinheiro de investidores até então consistentes. Pode acontecer com qualquer empresa. Dividir entre algumas ações diferentes continua sendo a melhor coisa a fazer.
4. Confiar no feeling
A intuição é humana. O problema são três vieses que vêm junto com ela: o da confirmação, que prefere os fatos que apoiam o que você já pensa; o do otimismo, que faz você achar que só você notou alguma coisa; e o da manada, que corre para onde todos correm. As maiores besteiras que vi investidores fazerem nasceram de um feeling.
5. Não vender por causa do imposto
Quem carrega uma ação por muito tempo, com um ganho grande, cria uma relação emocional com ela. E depois de tanto tempo não vende para não pagar o imposto sobre o lucro. Então vem uma crise, a ação cai muito mais do que o imposto custaria, e a pessoa descobre que pagou com o patrimônio o que não quis pagar ao governo.
6. Abandonar o plano
É impossível ignorar a emoção quando o assunto é dinheiro. A melhor maneira de lidar com isso é manter o plano original. Se você planejou vender uma ação num certo preço e ela chegou lá, venda. Não deixe a ganância dizer que ainda vai subir, para depois ver o preço voltar. O mesmo vale, com mais razão ainda, para o stop.
7. Comprar porque gosta da empresa
Gostar do produto de uma empresa não é motivo para comprar a ação dela. A primeira hora do pregão é conhecida como a hora dos amadores: é quando o investidor desinformado compra e vende afoito, baseado no noticiário da noite anterior. O investidor experiente espera a oscilação passar e não decide no calor da hora.
8. Investir só pelo sonho do dividendo
Quando uma empresa paga dividendo, ela perde valor. É como uma vaca prenhe, que vale mais com o bezerro no ventre do que depois de parir. Empresa que paga bem costuma dar sinal de saúde, mas às vezes mostra falta de capacidade de investir para crescer. Não compre uma ação só porque ela paga bons dividendos.
A prática leva à perfeição, e isso vale para investir. Leia muito, leia opiniões diferentes, exercite o cérebro como um músculo até criar as suas convicções, e não fique amarrado demais a elas. Mudar de posição a cada notícia custa caro. Comprar e esquecer pode custar ainda mais.

