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relatório · novembro de 2026

Por que o Brasil paga um dos maiores juros do mundo

Passei as últimas semanas juntando dado do Banco Central, do Tesouro e do FMI para responder a uma pergunta que me acompanha desde que comecei a operar: por que o Brasil paga um dos maiores juros reais do mundo. O que encontrei me incomodou. Quase todo mundo, inclusive gente que entende de economia, está olhando o número errado.

Juliano Custodio12 minutos de leituraMaterial educacional. Nada aqui é recomendação de investimento.

01 · o número errado

O número que o investidor olha

Quando se fala em contas públicas, o número que circula é o déficit primário: o quanto o governo gasta acima do que arrecada, sem contar os juros. Ele é pequeno. No acumulado de doze meses até setembro, fica em 0,52% do PIB, uns R$ 70 bilhões. Visto sozinho, parece uma conta sob controle.

O problema é o que fica de fora. Quando entra o juro que o governo paga sobre a própria dívida, o déficit vai para 9,51% do PIB. São R$ 1,2 trilhão por ano só de juros, 9% de tudo o que o país produz. A média dos emergentes fica perto de 6%, e o Brasil está entre os piores do grupo.

Os juros sozinhos são dezessete vezes o déficit primário. É por isso que eu digo que o número certo é o nominal: ele mostra para onde a dívida está indo, e não só se o mês fechou. Nos vídeos eu usei o dado de agosto (0,62% e 9,48%); a nota de setembro saiu em 29 de outubro e piorou os dois.

déficit do setor público em 12 meses até setembro, % do PIB
Primário (sem juros)0,52%
Nominal (com juros)9,51%

linha pontilhada: média dos emergentes, perto de 6% (FMI)

R$ 1,2 tri
só de juros, em 12 meses (8,99% do PIB)
17×
os juros contra o déficit primário

02 · a analogia

Uma família que paga o mercado em dia e rola o cheque especial todo mês

Eu explico isso com uma família. Imagine alguém que paga o mercado em dia, nunca atrasa a escola das crianças e todo mês rola o cheque especial. Olhando só a conta do mercado, parece organizado. O gerente do banco não olha só isso. Ele olha para onde a coisa está indo.

E aí vem a parte cruel, porque o juro alto vira a própria causa de a dívida crescer. A família paga caro porque deve muito, e passa a dever mais porque paga caro. O país funciona do mesmo jeito: o déficit primário é a conta do mercado, e os juros são o cheque especial.

03 · o ciclo

Três coisas aceleram o ciclo

Tem três coisas que fazem esse ciclo girar mais rápido aqui no Brasil do que em quase qualquer outro lugar.

composição da dívida pública federal, setembro de 2026
51,6% segue a Selicprefixados e indexados à inflação
  1. 1

    A dívida segue a Selic quase na hora.

    Metade da dívida pública federal (51,6% em setembro) está atrelada à Selic. Quando o Banco Central sobe o juro para segurar a inflação, a conta do Tesouro sobe no mês seguinte. Em outros países, o remédio e o efeito colateral andam separados por anos.

  2. 2

    O prazo é curto.

    O prazo médio da nossa dívida é de 4,1 anos. O da Índia passa de 12. O governo rola a dívida o tempo todo, e cada rolagem acontece ao juro do dia.

  3. 3

    O juro corre mais do que a economia.

    Na projeção do FMI para 2026 a 2031, o juro que o Brasil paga na dívida supera o crescimento da economia em 2,8 pontos por ano. Na média dos emergentes acontece o contrário: a economia cresce 2,2 pontos acima do juro. Quando o custo da dívida cresce mais rápido do que a renda do país, a dívida cresce sozinha, mesmo com o primário equilibrado.

04 · o argumento que não fecha

Não é o tamanho do país

Toda vez que eu falo disso aparece alguém dizendo que o nosso juro é alto por causa do tamanho do país, da população, da distância. Eu fui atrás, e o número não sustenta isso. Existe país com a nossa densidade, com o nosso perfil, pagando um quarto do que a gente paga.

A Indonésia tem seis vezes a nossa densidade demográfica e paga cerca de 2% de juro real. O Chile tem a mesma densidade que a nossa e paga os mesmos 2%. O Brasil paga 8,45%, o maior juro real do mundo no ranking de setembro. Geografia não explica.

O que explica é a conta pública. A receita do governo chega a 40% do PIB, contra 26% na média dos emergentes, e mesmo assim 92% do orçamento é obrigatório. Sobra muito pouco para decidir, e o juro é o que fecha a diferença.

paísdensidadejuro real
Brasil25 hab./km²8,45%
Indonésia148 hab./km²2,1%
Chile26 hab./km²2,1%
40%
do PIB em receita do governo geral (emergentes: 26%)
92%
do orçamento de 2026 é despesa obrigatória

05 · a melhor explicação que eu já ouvi

A meia-entrada do crédito

Essa comparação não é minha. É do Roberto Campos Neto, em 2023, quando presidia o Banco Central e a Selic também estava em 13,75%. Eu acho a melhor explicação que existe sobre o juro no Brasil.

Hoje 43% do crédito no país é direcionado: o rural, o habitacional e o do BNDES, R$ 3,2 trilhões de um estoque de R$ 7,4 trilhões. Esse crédito simplesmente não reage à Selic, porque tem taxa própria, decidida em outro lugar. Para frear a economia, o Banco Central precisa subir ainda mais o juro de quem toma crédito livre, porque quase metade do mercado não responde ao comando.

Aí acontece o que acontece num cinema que vende muita meia-entrada. Quem paga a inteira paga mais caro, porque o cinema precisa fechar a conta de algum jeito. Quem toma crédito livre no Brasil é quem paga a inteira.

a cada 10 reais de crédito no país
pouco mais de 4 pagam meia (43%)6 pagam a inteira, e mais caro

06 · a solução

Ulisses não confiou na própria força de vontade. Ele confiou no nó

Agora a parte da solução, e eu vou usar uma história que me acompanha. Na Odisseia, Ulisses sabia que não ia resistir ao canto das sereias quando passasse por elas. Ele não confiou na própria força de vontade, que era enorme. Ele confiou no nó. Mandou os remadores taparem os ouvidos com cera e amarrarem ele ao mastro, com ordem de apertarem mais a corda se ele implorasse para ser solto.

É exatamente isso que uma regra fiscal com gatilho automático faz. Ela não depende de o governo da vez ser disciplinado. Ela amarra o governo da vez no mastro. Quando a despesa passa do limite, o corte acontece por regra, sem precisar de votação, de coragem ou de popularidade.

As quatro frentes que eu defendo seguem essa lógica: uma regra fiscal com gatilho, a redução gradual do crédito direcionado, o alongamento do prazo da dívida e a desindexação do orçamento. Nenhuma delas depende de heroísmo. Todas dependem de nó.

07 · e tem prêmio no fim

O esforço se paga em parte sozinho

Cada ponto a menos na Selic, mantido por um ano, tira cerca de R$ 65 bilhões da conta de juros da dívida. É a conta do próprio Banco Central. Se a Selic sair dos 13,75% de hoje para 9%, são cerca de R$ 310 bilhões por ano. O ajuste que o FMI e o Banco Mundial pedem ao país é de 3% do PIB, perto de R$ 400 bilhões.

Ou seja: três quartos do esforço fiscal voltam na forma de juro menor, se o ajuste for crível. É o prêmio de quem se amarra no mastro antes de ouvir a sereia. A próxima decisão do Copom sai no dia 4 de novembro.

por ano, em bilhões de reais
Cada 1 ponto a menos na SelicR$ 65 bi
De 13,75% para 9%R$ 310 bi
Ajuste que o país precisa (3% do PIB)R$ 400 bi

R$ 310 bi que a queda do juro devolve contra os R$ 400 bi do ajuste

08 · a minha leitura

O que eu faço com isso

Esse relatório é um alerta, e não uma previsão. Eu não sei se o ajuste vem, e ninguém sabe. O que eu sei é o que acontece em cada um dos dois cenários.

Se o governo apresentar um ajuste de verdade nos próximos meses, o juro cai, a dívida para de crescer sozinha e o país ganha uma década. Se não apresentar, a gente já viu esse filme: a família endividada paga a conta primeiro, depois a empresa que depende de crédito, e no fim quem perde o emprego é o trabalhador.

Na minha leitura, enquanto o nó não existe, esse é um momento para reforçar o caixa e fugir de dívida cara, e não para apostar que o juro vai cair ao longo do tempo. Quem tinha renda fixa atrelada à Selic em 2015 atravessou aquele ano inteiro. Quem estava alavancado sentiu o golpe.

as fontes

  1. 01Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais, nota de 29/10/2026 (setembro): déficit primário, nominal, juros nominais e a elasticidade da dívida à Selic
  2. 02Tesouro Nacional, Relatório Mensal da Dívida, setembro de 2026: 51,6% em Selic, prazo médio de 4,10 anos
  3. 03FMI, Fiscal Monitor, abril de 2026, tabelas A9, A13 e A24: déficit e receita dos emergentes, diferencial juro-crescimento 2026 a 2031, prazo da dívida da Índia
  4. 04FMI, Artigo IV do Brasil, 23/07/2026: ajuste de 3 pontos do PIB entre 2026 e 2031
  5. 05Banco Mundial, Relatório de 26/06/2025: ajuste de cerca de 3% do PIB no resultado primário
  6. 06MoneYou e Lev Intelligence, Ranking mundial de juros reais, 16/09/2026: Brasil 8,45% (1º), Indonésia 2,14%, Chile 2,09%
  7. 07Banco Mundial, Densidade demográfica (habitantes por km²), 2023 e 2024
  8. 08Ministério do Planejamento, PLOA 2026 e apresentação do PLOA 2027 (31/08/2026): 92,4% de despesas obrigatórias
  9. 09Banco Central do Brasil, Estatísticas Monetárias e de Crédito, nota de 29/10/2026: estoque de R$ 7,4 trilhões, R$ 4,2 trilhões em recursos livres
  10. 10InfoMoney, Roberto Campos Neto na CAE do Senado, 25/04/2023: a meia-entrada e os 40,3% de crédito direcionado
  11. 11Banco Central do Brasil, Copom, 281ª reunião, 16/09/2026: Selic em 13,75% ao ano; próxima decisão em 04/11/2026

Este relatório é material educacional escrito por Juliano Custodio. Nada aqui é recomendação de investimento. Os dados têm fonte e data indicadas e podem ter sido revisados pelos órgãos depois da publicação.

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