Em 2015 a empresa estava começando e eu dirigia um carro de uns vinte e cinco mil reais, um sedã popular de 2010. Fui a um encontro de marketing digital e, numa roda de conversa, contei que investia entre vinte e cinco e trinta mil reais por mês em anúncios para atrair clientes. Uma pessoa que dava palestra sobre o assunto riu na minha frente. O seu carro não vale trinta mil, ela disse, e você vai investir trinta mil por mês em anúncio?
A resposta que eu dei naquele dia é a que eu daria hoje. Eu só conseguia investir trinta mil por mês porque tinha um carro barato. Se tivesse um carro caro, aquele dinheiro estaria virando prestação, e a empresa que existe hoje não existiria.
O que o relógio diz, e o que ele não diz
De vez em quando me perguntam se quem tem dinheiro julga os outros pelo relógio ou pelo carro. Na minha experiência, quem julga pelo relógio é quem não tem outra coisa para oferecer além do próprio relógio. A pessoa que precisa mostrar o que tem no pulso costuma estar vendendo alguma coisa, e o relógio é o argumento.
Quem construiu patrimônio de verdade raramente conta. Não por modéstia: por não precisar. O dinheiro que fica visível no estacionamento é dinheiro que deixou de trabalhar. E nos anos em que uma empresa está nascendo, cada real que trabalha vale mais do que em qualquer outra fase da vida, porque é ele que compra o próximo cliente.
A conta que eu fiz na época
A conta era simples. Trinta mil por mês em anúncio traziam pessoas que viravam clientes, e cliente que entra numa casa de investimentos tende a ficar anos. Trinta mil por mês em prestação traziam um carro, que no fim do prazo valia metade. Um dos dois gastos se paga e cresce. O outro só se paga.
Carro bom tem hora. Existe uma ordem: primeiro o capital que trabalha, depois o que anuncia. Quem inverte a ordem anuncia uma riqueza que ainda não tem e, por isso mesmo, demora mais para tê-la.

